Júlia Ribas

Pedro Melo | Artista

Júlia é o reflexo de uma força natural. Pela potência, creio que carrega consigo a energia de um Nkisi feminino. Quando falo Nkinsi – palavra que do kikongo origina-se no termo kinsa, que significa cuidado – confabulo sobre três elementos postos sobre ela: caminho, natureza e ancestralidade; e que em meu entender, se intercruzam/encruzilham, em Julia. A Natureza, pela força da tempestade sonora que ela carrega, uma chuva que prenuncia florada, e que em sequencia nos presenteia com frescor e brisa leve. Ancestralidade, pela energia markuniana, indígena, barranqueira, negra, afrolatina que permeia sua arte, que não apenas questiona o hoje, mas que conta uma história de anos e trazidas por sua voz. E, por fim, caminho, que foi o grande responsável por moldar seus trabalhos artísticos desde o encontro-reencontro com a obra de seu pai, passando por um encontro-reencontro com o sertão e um encontro- reencontro com o ser feminino mãe-matéria. Júlia se fez e se faz como mulher e vem incidindo sua feminilidade por meio de sua música. Isso é inegável. Brasiliando, disco de feitura, já marca esse lugar no qual “Fêmea Brasileira” seria a profecia que o seu caminho lhe oferecia para trilhar. Quis o homem, um ser monocromático, desprovido de compreensão, atravessar o seu caminho com morte e violência, proporcionando em episódios de abandono e sofrimento. Pobre homem que a quis colocar no lugar de mulata! Quem carrega caminho, natureza e ancestralidade não é de entender a morte como chicote. Seu ouvido - lembremos da profecia - a mandou ir ao sertão. Não como uma ida ao deserto, para encontrar maná, mas como um reencontro com seu caminho. Só quem vai ao sertão sabe que a morte é passagem. É permissão para encontrar o insondável. É pertencer Kalunga (barranqueiro). Feita no caminho, feita a mulher, Julia volta pra casa: seu lugar de feminilidade é tempo de tempestadear. Senhora do Reino da Matamba da música, dama do samba, jorra agora sobre o Morro. Sua tempestade expõe a visão de morte que o machismo e racismo a fez engolir. Da forma como está, o Morro não tem vez! Cantar o Morro é sua entronização nas questões da mulher brasileira do séc XXI que trovoa sobre homens que querem perpetuar a visão da morte-fim. Julia, se coroa para ser mulher e ir além da morte. Quem carrega força, e sabe disso, não nasce pra ser qualquer. Nasce pra transpor as questões do tempo. Nasce para ser sinal de caminho, de ancestralidade e de natureza. Nasce para ser mulher!

Pedro Melo | Artista